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Os caças da FAB

Introdução


Sucateada durante muitos anos, a FAB tem sido tratada pelos políticos como uma simples empresa de táxi aéreo. De suas várias unidades, a que mais tem recebido atenção e novas aeronaves é justamente o GTE - Grupo de Transporte Especial, cuja função é transportar as autoridades. É o grupamento cujas aeronaves são as mais novas da frota. Enquanto isso, outras unidades não recebem a mesma atenção.


VC-1 (Airbus Aerolula). Custo: 57 milhões de dólares
VC-2 EMB190 Custo: 30 Milhões de dólares
EC-725 Helicóptero presidencial Custo: 50 milhões de dólares
Possuindo caças de mais de 40 anos e sofrendo com constantes contingenciamentos de verbas, as unidades de defesa aérea não voam a quantidade horas recomendadas para o devido treinamento de seus pilotos (200 horas/ano). Neste texto tentarei detalhar mais o assunto para conhecimento de todos da atual situação.

Canopy de um caça F5 que soltou-se em pleno voo quase causando um acidente


Histórico

Discutir a Força Aérea Brasileira envolve tanto o sentimento de orgulho como causa constrangimento. O que nos dá orgulho na FAB é aquele lado humanitário que esta sempre presente, seja no dia  a dia das populações afastadas como na situações de calamidades, levando socorro e assistência. Este lado ufanista era muito explorado pelo repórter Amaral Neto que na década de 70 pegava carona nos antigos Catalinas da FAB para chegar na Amazônia. Termos como "Gigante pela própria natureza" e "Brasil, país do futuro" eram muito repetidos na época.

Catalina da FAB

Hoje os raros momentos de orgulho da aviação brasileira é quando vemos a nossa industria aeronáutica emplacar uma venda no exterior mesmo disputando com indústrias muito maiores que ela.

Porém, o poder de combate da FAB quase sempre foi questionável. Tirando alguns momentos distintos  da história que foram a II guerra mundial na Itália e meados da década de 70, quando houve a aquisição de novos vetores, a história da aviação de combate da Fab é cheia de motivos de frustração.

Hoje, os principais caças da Fab tem mais de 40 anos de uso, mas não é de hoje que utilizamos produtos velhos ou de segunda linha. Após a segunda guerra, enquanto as potencias desenvolviam aviões a jato, os esquadrões de caça brasileiros foram obrigados a utilizar velhos P-47 e P-40 remanescentes da guerra. Este último, utilizado até o seu limite, quando a fadiga na longarina das asas causaram um acidente fatal, obrigando a desativação das unidades.

P47 exposto no extinto Museu da Tam Abril de 2013.
Na década de 50 tentamos adquirir caças a jato dos americanos mas nos foi negado por razões políticas, pois, segundo eles, isto provocaria um desequilíbrio de forças no continente. Buscamos alternativas e em 1952, através de uma troca comercial por algodão, adquirimos mais de 70 Gloster Meteor da Inglaterra.

Infelizmente o primeiro caça a jato da FAB não era lá grande coisa, pois já tinha se demonstrado inferior aos Mig-15 na Guerra da Coréia. Anos depois em meados de 1966 foram desativados devido a fadiga das asas, típico problema de aviões velhos e cansados.

Também na década de 50 recebemos cerca de 50-60 unidades de T-33 e cerca de 30-40 de F80, que na realidade são variantes do P80 Shooting Star, outro produto que já na Coréia não era pário para os Migs. Na realidade, esses T33 era treinadores, que foram utilizados como caças pelo Brasil até meados da década de 70.

Gloster Meteor exposto no Museu da Tam Abril de 2013
Ainda na década de 70, a Embraer fabricou sob licença da Aermacchi Italiana o MB326, que no Brasil foi chamado de AT-26 Xavante sendo 166 unidade adquiridas pela FAB. Na realidade era outro treinador mas com capacidade de ataque ao solo. Com o passar dos anos este foi gradativamente substituído pelo turbo hélice AT-29 Super Tucano, (99 unidades).


AT-26 Xavante
A-29 Super Tucano
Mas tarde algumas pessoas do meio questionaram essa substituição de jatos por turbo-hélices, alegando que isso causou um impacto negativo no treinamentos dos pilotos de caça da força.

Também na década de 70 foram adquiridos cerca de 16 Mirages III que ficaram sediados em Anápolis até serem desativados em 2005. Ao longo de sua utilização boa parte da frota de Mirage III foi perdida por acidentes o que obrigou a uma aquisição complementar de mais 15 unidades nos anos 80/90, segundo o pesquisador Rudnei Cunha.

Em 2010 era possível ver 12 unidades remanescentes da frota armazenadas ao relento na Base de Anápolis através de imagens do Google Earth. .

Mirage III com pitura comemorativa dos 30 anos de uso na FAB
Esses aviões franceses foram adquiridos porque os americanos não queriam fornecer caças para a Brasil naquela época. Sua compra forçou os americanos a vender o modelo F5, mas sobre isso discutiremos mais a frente.

F5 com pintura comemorativas de 30 anos de serviço.

No final da década de 70, a FAB não possuía uma aeronave especializada em ataque que pudesse conter uma invasão terrestre ao seu território, por isso a EMBRAER que na época era estatal, formou um consorcio internacional com a empresa italiana Aeromacchi, para desenvolver o jato AMX. Desta parceria foram adquiridos cerca de 54 unidades, das quais 43 restantes estão passando atualmente por um processo de modernização.

A-1 (AMX)
Devemos chamar a atenção para o fato de que a princípio, era esperado uma aquisição de um número maior de quantidades e com um tecnologia de ponta que não foi entregue a FAB. Somente agora na sua modernização, espera-se que a aeronave cumpra o que havia sido prometido para a década de 90.

Os críticos do programa AMX alegam que pelo seu custo, poderia ter sido adquirido o dobro em caças F-16, dai seu apelido jocoso de F-32. Entre os defensores, o argumento é que graças a tecnologia adquirida com o projeto, a EMBRAER pode desenvolver diversos programas em aeronaves civis que geraram renda, impostos e empregos.

Tendo em vista a aposentadoria dos Mirages III a FAB iniciou na década de 90 um programa para aquisição de novos vetores conhecido como programa FX.

O Programa FX

Iniciado ainda na era FHC, o programa de aquisição de caças FX passou por inúmeras fases com mudanças de objetivo, onde diversos vetores chegaram a ser analisados, entre eles podemos citar o F-16, o Mirage 2000 e até mesmo o Su-30 russo.

Esta analise foi feita por uma comissão específica da FAB que levou em consideração aspectos técnicos, financeiros, logísticos, geopolíticos e chegou a uma lista de possíveis candidatos para substituir os 12 Mirages de Anápolis cuja aposentadoria era prevista para 2005.

Ao longo dos dois primeiros mandatos de FHC  a escolha foi por diversas vezes adiada por razões econômicas. Em 2002, no final de seu mandato, FHC deixou a questão para o seu sucessor.

Nessa época chegou-se a cogitar a aquisição de caças israelenses Kfir que seriam usados como substitutos temporários (tampão) até a definição do programa. Os Mirage III já estavam com 30 anos de uso e sua manutenção ficava cada dia mais difícil. Em 2005, a aposentadoria chegou.

Segundo alguns comentários nas redes sociais*, os Mirage III da FAB foram aposentados com muitas horas de uso ainda disponíveis, pois não havia interesse em mantê-los, seja pelo alto custo da manutenção seja pelo interesse interno forçar uma definição, seja para o FX ou para a compra de um caça tampão.

A título de comparação, os Mirages argentinos se aposentaram 10 anos depois em 2015. Cabe lembrar também que não havia interesse por parte do fabricante em modernizá-los, mas sim em vender modelos de Mirage mais novos. (*Não temos links para comprovar tais afirmações).Sem Mirages III, Anápolis chegou a utilizar até jatos Xavantes para manter o treinamento de seus pilotos.

Ao invés de definir a aquisição de novos caças, o então Presidente Lula optou em Junho/2005 pela aquisição provisória de 12 Mirages 2000C usados da França, por um "preço de ocasião" (60 milhões de Euros, segundo a Folha/80 milhões segundo o Estadão ). Esses caças possuíam uma vida útil aproximada de apenas 5 anos, não foram adquiridos com misseis, contando apenas com canhões para defesa e deveriam ser encarados como um quebra galho enquanto o FX não fosse escolhido.

Por diversas razões técnicas e políticas, em 2008 o programa FX foi encerrado e o governo deu inicio a um programa mais ambicioso chamado FX-2, que previa a compra de 36 aeronaves, com possível fabricação futura de outras pela industria nacional, além de contemplar a Marinha com um caça naval.

Em meados de 2009 uma comissão da FAB apresentou três possíveis candidatos: O Super Hornet, o Rafale e o Gripen NG


No dia 07 de Setembro de 2009, aproveitando a visita do presidente Nicolas Sarkozy, Lula anunciou a vitória do concorrente francês. Nos dias seguintes, um relatório interno da FAB que vazou na mídia, mostrava que a preferencia da força aérea era pelo Gripen Suéco, o mais barato do três concorrentes, ficando o francês como última opção. Nesta ocasião, várias reportagens questionaram a escolha presidencial, tendo visto que o caça era o mais caro dos três. Desgastado politicamente, Lula postergou a decisão e deixou a cargo de sua sucessora a solução do problema.

Durante o governo Dilma pensava-se que o Super Hornet sairia vencedor, tendo em vista o possível desgaste das relações Brasil-França após a eleição de um brasileiro como chefe da Organização Mundial de Livre Comércio e de problemas na transferência de tecnologia no desenvolvimento do submarino nuclear brasileiro. Porém, as revelações do analista Edward Snowden sobre espionagem por parte da agencia americana NSA azedou as relações entre Brasil e EUA em junho de 2013

Esticando ao máximo a vida útil dos Mirage 2000 tampão, a FAB passou a canabalizar peças para manter pelo menos metade da frota voando.

Em Dezembro de 2013 a então "presidenta" Dilma decidiu pela compra de 36 unidades do Gripen NG em um contrato de 4,5 bilhões de dólares, que  inclui transferência de tecnologia para que parte dessa quantidade seja construída nas instalações da EMBRAER. O modelo ainda esta em fase de desenvolvimento, tendo sido apresentado esse maio de 2016. Acredita-se que seu primeiro voo seja até o final desse ano. Os pagamentos começarão após a entrega do último exemplar, que deve levar cerca de 9 anos a partir do início de sua produção.

Posteriormente a escolha, a FAB optou por solicitar a SAAB fabricante do Gripen um painel "mais moderno" o que encareceu o contrato em quase 1 bilhão de dólares. Atualmente o Ministério Público investiga empresas e partes envolvidas no processo da aquisição do caça.

Principais críticas ao programa FX

A principal crítica ao programa é não contemplar uma aeronave de 5ª geração, isto é, invisível aos radares convencionais. Pelo custo atual, cada Gripen adquirido custará algo em torno de 150 milhões de dólares enquanto que acredita-se que um furtivo F-35 americano deverá custar no futuro algo em torno de 85 milhões.

Alguns caças de 5ª geração atualmente em fase adiantada de desenvolvimento

Além dos EUA, Russia e China também estão desenvolvendo projetos dessa geração, sendo que nos foi oferecido pelos russos a participação no programa PAK FA.

Não bastasse a questão de comprar algo que em alguns anos pode estar tecnologicamente defasado, a quantidade inicial proposta parece ser muito pequena para a dimensões do país. Alguns de nossos vizinhos Chile e Venezuela possuem cerca de 60-70 caças da mesma geração do Gripen.

O Gripen não é um caça naval. Caso decida-se pela sua adoção para a Marinha, o desenvolvimento de uma versão naval poderá esbarrar no alto custo para o desenvolvimento de poucos unidades.

Por ainda estar em desenvolvimento, teremos que esperar até inicio da produção em escala do Gripen Ng, portanto só poderemos contar com essa aeronave na próxima década. Até lá contaremos apenas com os F5, AMX e Super Tucanos.

Paralelamente ao programa FX2, a FAB iniciou um processo de modernização de suas aeronaves de patrulha e de caça. Em outros países as modernizações geralmente acontecem quando as aeronaves atingem a metade de sua vida útil (15-20 anos). De acordo com as nossas pesquisas, o custo de uma modernização geralmente em ficado entre 25 a 50% do custo da aeronave.

No Brasil, as modernizações do F5 ficaram algo em torno de US$ 8-10 milhões/unidade e algo em torno de US$ 20 milhões/unidade para os AMX. Para a Marinha a modernização dos A4 estava custando cerca de US$ 10 milhões/unidade. Os constantes contingenciamentos de verbas tem provado atrasos nos programas de modernização, além de problemas junto ao Ministério Público com relação a alguns contratos.

Os F5 da FAB


F5B aposentado e largado no estacionamento do IV comando aéreo em São Paulo.

Desde 2014 o principal vetor de defesa aérea brasileiro é o F5EM. Trata-se de uma versão modernizada do F5E/F Tiger II que passou por um processo de modernização que levou quase uma década para sua conclusão (O programa de modernização dos F5 iniciou-se em 2003, tendo sido entregue a primeira unidade F5M em 2005 e a última em março de 2013)

Seu baixo custo de manutenção da ordem de 10-12 mil dólares a hora de voo e boa manobrabilidade o descrevem como a melhor relação custo-benefício que uma Força Aérea  sem recursos pode ter. Seu grande defeito é ser velho.

Concebido para ser oferecido às nações aliadas dos americanos no período da guerra fria nos anos 60-70, essa máquina continua voando pelo mundo em suas diversas verões: T-38, F5A/B, F5E/F, além de versões modernizadas como as brasileiras e chilenas.

Nunca foi uma máquina de primeira linha. Era vendido sem muita tecnologia instalada para evitar que caísse nas mãos dos russos. Veterano do conflito do Vietnam ele chegou na FAB na década de 70.

Na época a Força Aérea queria Phantom II F4 mas os americanos não quiseram vender com a desculpa de manter o equilíbrio na America Latina. Mais tarde este discurso veio a baixo quando venderam F16 para a Venezuela. Se arrependeram amargamente mais tarde com a chegada da era Chavez.

Mesmo adquirido a contra gosto, os F5 na FAB não decepcionaram. Se a FAB não estivesse feliz com os seus caças, não teriam sido comprados lotes distintos. Quando comparado ao Mirage, suas perdas foram mínimas.

De acordo com o site Plano Brasil, a FAB recebeu dos EUA 6 F-5B (matrículas FAB 4800 a 4805), 4 F-5F (FAB 4806 a 4809) e 58 F-5E (FAB 4820 a 4877) que foram adquiridos em lotes distintos. O primeiro em 1973, direto da fábrica (06 F-5B + 36 F-5E), ao valor de US$ 115 milhões e o segundo lote, em 1988, ex-USAF (04 F-5F e 22 F-5E), ao custo total de US$ 13,1 milhões.

Em 2008 a FAB adquiriu 8 caças F5E(FAB 4878 A 4886) e 3 F5F (FAB 4810 a 4812) comprados da Jordânia por 21 milhões de dólares. Cabe esclarecer que somente os três bipostos foram modernizados e incorporados a frota no padrão F5FM por falta de verbas para a modernização. 

Recentemente modernizados com nova aviônica, os F5EM da FAB são considerados caças de quarta geração, capazes de lançar misseis além do alcance visual. Sua aposentadoria está prevista para a década de 2020. Estima-se que no total a FAB tenha 57 unidades mas somente 48 estejam operacionais.

Julio Ribeiro - Entusiasta de Aviação Militar
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