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Comparativo entre FAs


Atualizado em 11/09/2016

Nos últimos anos, tenho visto as pessoas debaterem longamente sobre quais vetores que Força Aérea Brasileira deveria ter. Nesse sentido é comum se ouvir o argumento de que não temos recursos para isso ou para aquilo. Será que realmente não temos recursos ou gastamos mal os recursos que temos?

Vemos tantas outras Forças Aéreas investindo em vetores é nos perguntamos, porque não podemos? Será que estamos comparando com os países certos? Como estamos em relação a outros países? Qual deveria ser o critério para compararmos duas Forças Aéreas? Com essas questões na cabeça, parti para uma pesquisa buscando algumas respostas.

Comparativo por número de caças

Periodicamente o site Global Fire Power publica listas classificando as Forças Aéreas de acordo com seu poder, segundo o número de aeronaves disponíveis. São diversas listas conforme o tipo de aeronave considerada, isto é, caças, aeronaves de ataque, etc... Para simplificar, vou me limitar apenas ao número de caças para a defesa aérea.

Segundo eles, o Brasil ocuparia a 46ª posição no critério caças, considerando que teríamos 43 unidades disponíveis. Acredito que eles consideraram apenas os F5 modernizados na época da publicação. Provavelmente a lista deva ter outros números questionáveis. O Chile por exemplo não teve seus F5 computados. De qualquer forma, segundo eles o ranking por quantidade de caças seria assim:


Por essa lista estaríamos melhor posicionados que quase todas as FAs da América Latina, com exceção do Chile. Devido a quantidade de F5 modernizados, estaríamos em uma melhor posição que as Forças Aéreas da Malásia, Cuba, Ucrânia, Bielorrússia e Indonésia que contam, por exemplo, com Flankers, Fulcrums ou Hornets em alguns inventários. Seria esse o melhor critério de comparação? 

Eu acredito que essa lista sirva apenas para dar uma ideia que como estão numericamente as outras Forças Aéreas. Isso não mostra se temos uma força condizente com o porte do nosso país. Do ponto de vista a extensão territorial, quais países seriam comparáveis ao Brasil.

Extensão Territorial

De acordo com o site Mundo Educação, temos o seguinte ranking em termos de extensão territorial dada em Km²


Cruzando essa tabela com a anterior, percebemos que todos os países do primeiro ao sétimo colocado possuem uma Força Aérea numericamente maior que a nossa do ponto de vista de número de caças para a defesa aérea.

Desses, o mais próximo territorialmente falando, seria a Austrália que possui cerca de 78 caças entre Hornets, Super Hornets e futuramente F-35. Com uma Força Aérea um pouco maior que a australiana, encontramos o Canadá que possui 64 caças e que talvez adquira F-35 para substituir seus Hornets...

Considerando que o Brasil pretende substituir cerca de 100 aeronaves entre F5 e AMX por apenas 36 Gripens, já percebemos por essa tabela que países com as nossas dimensões possuem no mínimo uma frota com o dobro do número que futuramente teremos. Isso é preocupante.

Como parte da área de uma nação, muitas vezes não é densamente habitada. Talvez fosse mais interessante considerar o tamanho da população ao se fazer um comparativo.

Número de Habitantes

Para estabelecer uma relação entre população de FA peguei os dados do Index Mundi, que forneceu a população mundial em 2014 e plotei junto com o numero de caças que já tínhamos.


Cruzando essas informações com a tabela de número de caças percebemos que fica difícil estabelecer uma relação entre população e tamanho de FA. Nela encontramos tanto países populosos com Forças Aéreas superdimensionadas como também países com frotas inexpressivas.

Com números populacionais próximos ao Brasil, encontramos a Indonésia com uma frota de 35 caças como também o Paquistão e seus 300 aviões de combate. Com quem comparar?

Uma verdade pode ser constatada: dos 30 países mais populosos do globo, só 10 possuem uma Força Aérea mais fraca que nossa do ponte de vida de caças. Talvez fosse melhor comparar pelo mesmo nível de riqueza.

Recorrendo ao PIB

O PIB representa monetariamente a soma de todos os bens e serviços produzidos em uma determinada região. De acordo com o Banco Mundial, estamos entre os países mais ricos do planeta. A título de ilustração peguei os 15 primeiros do ranking de 2015. Destes, a nossa Força Aérea só é melhor que a Mexicana que possui apenas 10 caças F5.



Porem comparar números brutos da riqueza podem nos levar a erros grosseiros. A título de ilustração, imagine comparar o padrão de vida de um jovem solteiro que ganha R$ 3.500 com o de um chefe de família que ganha a mesma quantia mas mantém sozinho uma casa com três pessoas. Entende o problema? Então vamos dividir essa riqueza.

Tomando como base o PIB Per Capita

Para não cometer o erro citado acima, resolvi tomar o PIB Per Capita que é, grosseiramente falando, o PIB do país dividido por sua população. Para esse levantamento peguei outra planilha do Banco Mundial, com valores em dólar e atualizada em Agosto de 2016. Estranhei o fato de alguns países não aparecerem, mas futuramente revisarei esses números. 

Assim temos o seguinte ranking que dividirei em partes.


Veja que o Brasil não aparece nessa primeira lista pois ele se encontra na 67ª posição. Fiz questão de colocar esta tabela pois gostaria de chamar a atenção para alguns pontos. 
  • Nessa lista estão boa parte dos países considerados ricos que estão no programa do F-35. 
  • Tirando aqueles que nem sequer possuem Força Aérea, a maioria possui vetores relativamente modernos
  • Dos vizinhos, novamente o Chile esta em uma melhor posição que o Brasil. Repare que o Uruguay esta mais bem posicionado ainda. Caberia perguntar, porque então algumas autoridades insistem em fazer doações de material bélico para este país?
Agora vejamos alguns países cuja renda per capita esta mais próxima do nosso:


Nesta tabela encontramos Turquia, Russia e China, com valores próximos aos nossos US$ 8.500 per capita, porem, ao consultarmos aquela primeira tabela que relaciona números de caças, os três possuem Força Aéreas muito maiores que a nossa. 


Apesar do Brasil hoje ter números bem próximos da Russia tanto em PIB geral como no Per Capita, comparar os dois países parece de descabido pois parte do inventário de aeronaves assim como indústria aeroespacial russa é em parte fruto da época da URSS. Também não podemos comparar com a China devido a enorme diferença do PIB. 

Por essas razões vou me ater apenas a Turquia. Ela é um país da OTAN, situado em uma região de conflito, luta contra grupos curdos separatistas, tem um problema com terroristas dos ISIS, por tanto é natural que invista mais em devesa aérea. 

Por outro lado o Brasil também tem problemas com violência, crime organizado, corrupção, problemas na saúde, educação, que trariam uma série de demandas no orçamento que não permitiriam um aumento nos gastos com sua defesa.

Então como comparar países tão distintos? Talvez devêssemos levar em consideração o grau de desenvolvimento humano da sociedade antes de pensar em uma comparação entre os países.

Comparando pelo Índice de Desenvolvimento Humano

Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é uma medida comparativa usada para classificar os países pelo seu grau de "desenvolvimento humano" e leva em consideração a expectativa de vida ao nascer, a educação e PIB per capita. 

Para as Nações Unidas, o Brasil se enquadra em um nível de Alto Desenvolvimento Humano. Segue o ranking de outros países na mesma categoria.


Veja que novamente estamos bem perto da Turquia, por isso não me parece muito errado usá-la como comparação. Errado tem sido comparar com Índia e Africa do Sul que são classificadas como países de MÉDIO desenvolvimento humano e por tanto, nem aparece nesta tabela.

A Turquia é parceira do programa F-35, produziu o F-16 localmente sob licença , assim como uma versão do helicóptero de ataque Mangusta. No entanto tem um PIB que é a metade do PIB brasileiro. Como explicar isso?

O Poderio Turco

De acordo com a Global Fire Power, o orçamento anual para as Forças Armadas na Turquia é da ordem de 18 bilhões de dólares. Supondo que seja dividido igualmente, a Força Aérea Turca deva receber talvez um terço disso ou seja algo da ordem de 6 bilhões de dólares. Seu efetivo é da ordem de 60 mil militares e 600 aeronaves, sendo 200 caças, segundo essa fonte.

De acordo com a Wikipedia seriam 756 aeronaves, incluindo UAVs, helicópteros, cargueiros, etc sendo 348 caças se contarmos os F-4 e F-5 que foram modernizados e desconsiderando cerca de 70 jatos F-5/T-38 de treinamento. Podemos então dizer que mais da metade da frota da Turquia são jatos de combate.

No final da década de 90 o país resolveu criar um programa de modernização de suas Forças Armadas onde seriam alocados cerca de 150 bilhões de dólares nos 20-30 anos seguintes, fora o gasto do orçamento anual.

Comparando a FAB com a FAT

Para nossa tristeza, a título de comparação em outubro de 2013 a FAB dizia que eram necessários 9 bilhões de reais para se manter e investir em projetos, porém o orçamento de 2014 entregaria apenas 5 bilhões. 

Considerando que o dólar na época estava na faixa de R$ 2,15 podemos dizer que o orçamento da FAB para 2014 era de 2,3 bilhões de dólares ou seja 38% do orçamento da Força Turca para manter um efetivo de 75 mil servidores e cerca de 620 aeronaves.

Em 2009 o Ministério da Defesa brasileiro gastava 80% do seu orçamento com a folha de pagamento. Desses, 63% eram para pensionistas e inativos. Comparada com a Turquia, temos uma Força Aérea como 15 mil homens a mais, cerca de 130 aeronaves a menos, sendo apenas que 1/6 da nossa frota são jatos de combate!

Mas porque nossa FA é mais inchada? Seria menos eficiente já que precisa de mais gente para fazer o mesmo? Ou será que ela agrega um número maior de servidores porque se incumbe de outras tarefas que não obrigatoriamente seria sua função?

Por exemplo, o controle de trafego aéreo não poderia ser delegado a outras entidades? A FAB agrega em seus quadros médicos, dentistas, etc. Seriam essas funções que tornariam a FAB numericamente maior em pessoas? Nesse momento me faltam dados para concluir.

Se tem proporcionalmente menos caças é porque possui mais aeronaves voltadas para outras funções como, por exemplo, o transporte de cargas ou pessoas. Essa ideia parece ser reforçada quando analisamos o tamanho da nossa frota de aeronaves de transporte.

Enquanto nosso GTE possui 18 aeronaves de asa fixa para o transporte de autoridades, a Força Aérea Turca tem apenas um único Gulfstream IV. Enquanto eles possuem 80 aeronaves de transporte geral, adotando 4 modelos básicos, nossa FAB possui cerca de 120 aeronaves, já descontando metade da frota de bandeirantes que não serão modernizados, utilizando 8 modelos diferentes.

Enquanto a FAB a muito custo incorporou recentemente um 767 na frota para substituir o nosso sucatão, a Turquia possui sete  KC135, um deles inclusive foi utilizado para participar de um Red Flag esse ano.

Como o jornalista Alexandre Galante uma vez citou em seu site, é natural que tendo um país de dimensões continentais nossa frota seja direcionada para o transporte, mas cabe lembrar que essa frota na maioria das vezes é solicitada para atender demandas de outras pastas do governo.

Seja no transporte de órgãos para Ministério da Saúde, seja no transporte de tropas da guarda nacional para a pasta da Justiça, sejam nos casos de calamidades públicas como enchentes e deslizamentos.

Quando o governo falha e não atende as necessidades da população é a FAB que vem socorrer. Quando uma cidade não executa as obras de prevenção de deslizamentos ou de enchentes é a FAB que irá prover a população de suprimentos. Apesar de ser muito bonito e gratificante tais ações, são recursos da força que são desperdiçados.

Não estamos dizendo que a FAB deva se omitir, mas que os governantes façam sua parte e não usem a as Forças Armadas como "bombeiros em incêndio". Uma regra básica que aprendemos na informática é que manutenção corretiva, custa muito mais que a manutenção preventiva.

Com relação aos gastos com pensionistas e inativos, a FAB estava amarrada a leis antigas que já foram modificadas, porém tais correções levarão um bom tempo para surtirem efeitos. Recentemente eles anunciaram um plano de reestruturação onde uma das metas é aumentar a contratação de temporários para os seus quadros, o que diminuirá as despesas futuras com inativos.

Conclusão

Para a realidade da América Latina, temos uma Força Aérea numericamente acima dos padrões, perdendo em número de caças apenas para o Chile, que apresenta um PIB per Capita, maior que o nosso. Porem, pela riqueza produzida poderíamos estar muito a frente dos nossos vizinhos, nos igualando a países da OTAN, como a Turquia.

Isto sem comprometer a qualidade de vida da população como alguns países que vivem atualmente em uma "economia de guerra" na África e Ásia  estão fazendo. Digo isto porque países com um nível de desenvolvimento humano próximos ao nosso, possuem uma FA mais aparelhada que a FAB.

De acordo com o site Defesa Net, em uma matéria de 05/09/2016, o orçamento da FAB para 2016 e 2017 será respectivamente de R$ 18,9 e R$ 20,7 bilhões. Com o dólar cotado a R$3,27 nesta data, teremos então US$ 5,7 bi para 2016 e US$ 6,3 bi para 2017. Esses valores incluem todas as despesas, inclusive pessoal ativo e inativo.

- Não é aceitável portanto, aquele discurso de que não temos recursos para isso ou para aquilo. Dinheiro nós temos, o problema é que gastamos mal. Era óbvio concluir isso, mas precisávamos desenhar para que alguns entendessem.

Cabe esclarecer que este texto limitou-se a analisar apenas o poderio da nossa FAB no que diz respeito a quantidade de caças para defesa aérea.

Mesmo tendo a intenção de adquirir 36 vetores modernos no prazo de 10-15 anos, diante dos números de outras FAs, essa quantidade parece ridícula, principalmente considerando-se a nossa extensão territorial. Cabe lembrar que a soma de aviões disponíveis para ataque em nossos vizinhos beira as 200 unidades. Em caso de um conflito mundial generalizado, teríamos como neutralizá-los?

Ninguém aqui quer um país bélico, que ignore necessidades sociais e privilegie o investimento em Forças Armadas. Apenas queremos que os nossos impostos sejam gastos de forma inteligente sem desperdiçá-los para que a FAB possa proteger de maneira adequada a população.

Queremos uma FA enxuta, que não gaste a maior parte dos recursos com folha de pagamento, que seja motivo de orgulho e não uma mera companhia aérea que sirva apenas aos interesses dos governantes.
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