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25 de set de 2016

Quem vai ganhar a concorrência do T-X americano?


É de conhecimento geral dos leitores que frequentam esse Blog que a Força Aérea americana lançou em 2003 um programa denominado T-X para escolha de um novo treinador para substituir seus antigos T-38. Estima-se que essa concorrência gere um pedido de 200 a 350 aeronaves.

O texto abaixo contém uma grande concentração de "opiniões pessoais" e deve ser lido com o filtro do bom senso ligado no máximo...

O Northrop T-38 surgiu na década de 50 como a modificação de um projeto anterior (N-156) para concorrer em uma licitação que visava substituir o treinador T-33. Foi o primeiro treinador supersônico do mundo e mais tarde foi modificado para uma versão de combate, dando original ao famoso F-5A/B, oferecido como opção de baixo custo às nações aliadas durante a guerra-fria. 

Como todos sabem, mais tarde (1972) uma segunda geração de F-5 E/F foi desenvolvida e, passados quase 60 anos, milhares de unidades de F-5 de diferentes versões foram produzidas nos EUA e sob licença pelo mundo. Atualmente umas 500 unidades ainda continuam voando, das quais cerca 50 são nossas.

Já o programa T-X passou por vários adiamentos e mudanças nos seus requirimentos. Uma das mais recentes e relevantes para este texto é que antes se pensava em um treinador com potencial para ser uma aeronave de ataque. 

Com o surgimento de programas paralelos para escolha de possíveis substitutos da aeronave de ataque A-10, a preocupação em se ter um treinador com funções de ataque foi deixada de lado. Razão pela qual o Scorpion da empresa Textron nem participará da concorrência do T-X.

É do conhecimento de todos também que quatro grandes empresas americanas em parceria com empresas estrangeiras apresentarão seus concorrentes ao programa T-X até Dezembro deste ano. Mas o que essas empresas fizeram nos últimos anos e estão fazendo atualmente?

Northrop Grumman: Produziu 21 unidades do bombardeiro B-2 em um programa que custou mais de 45 bilhões de dólares. Recentemente venceu a concorrência para produzir o futuro bombardeiro B-21 Raider cuja demanda beira 80 a 100 unidades a um custo unitário estimado em US$ 550 milhões cada. Produziu também cerca de 40 unidades do UAV Global Hawk e atualmente toca o programa X-47.

Lockheed Martin: Produziu 195 unidades do F-22, esta finalizando a produção do F-16 depois de mais 4.500 unidades produzidas e agora produzirá o F-35, o programa de desenvolvimento mais caro da história, cuja produção estima-se que fique entre duas a três mil unidades até o final da sua linha de produção.

Raytheon: Produz os mais diversos sistema eletrônicos e de armas que incluem, radares, sensores, mísseis, como o Maverick, Tomahawk, Sidewinder, Patriot, só para citar alguns. Produtos que envolvem cifras astronômicas dentro e fora dos EUA.

Boeing: Produziu 279 unidades do C-17 encerrando sua produção em 2015. Produziu quase 1.200 unidades do F-15 e deve encerrar sua produção em 2019. Produziu cerca de 500 unidades do Super Hornet e deve encerrar sua linha de produção em 2018.

Venceu a concorrência para fornecer cerca de 170-180 aeronaves tanque para a USAF a um custo total de 40 bilhões de dólares com seu KC-46. Porém, notícias recentes do interesse americano de se ter uma aeronave reabastecedora com características furtivas, colocam em dúvida o número de unidades que realmente serão adquiridas, tendo em vista que o KC-46 nada mais é que um Boeing 767 especializado.

Além disso, a Boeing oferece ao mercado o P-8 Poseidon, um 737 especializado em vigilância grosseiramente falando, cuja produção atual mal chega a 30 unidades. Merece uma nota também, o misterioso programa espacial X-37 e derivados tocado pela empresa.

Tendo em vista os iminentes fechamentos das linhas de produção de caça e os atrasos no programa KC-46, tirando os pequenos pedidos de novas aeronaves presidenciais, chegamos a conclusão de que dos quatro concorrentes do programa T-X, a Boeing Defense parece ter o futuro mais sombrio.

O que fazer com sua unidade de produção de caças quando todos os pedidos de Super Hornets e Growlers forem atendidos? Algum "brilhante executivo" teve a ideia de oferecê-la para a Índia mas a Lockheed fez o mesmo oferecendo a linha de produção do F-16. Mesmo que fosse transferida, o que fazer com os milhares de trabalhadores americanos envolvidos na cadeia produtiva e de manutenção do F-15 e F/A-18? (veja a atualização no final da matéria).

A Boeing foi a última empresa concorrente a revelar sua aeronave para o T-X no dia 13/09. Aparentemente não teve nenhuma pressa para fazê-lo. Há menos de três anos, estabeleceu uma parceria com a SAAB para desenvolver um projeto do zero. A quem diga que o projeto apresentado recentemente tenha sido feito totalmente pela sua parceira e levado da Suécia para os EUA dias antes da apresentação.

Com um visual muito diferenciado dos outros concorrentes graça ao seus "Twin Tails" (foto acima, clique para ver o vídeo), o candidato da Boeing ganhou as graças dos entusiastas americanos que esperavam algo visualmente mais próximo de um F-35.

No mês anterior a Northrop Grumman já havia revelado seu projeto. Eles que no início tinham estabelecido uma parceria com a BAE para concorrer com uma versão do consagrado BAE Hawk, abandonaram tal ideia e partiram para um projeto "novo".

Surpreendentemente apresentaram uma versão muito parecida com um T-38 de um único motor  (GE F404-102D), lembrando muito o falecido F-20 Tigershark, porem sem a potencia do pós-combustor.

A performance de ambas aeronaves ainda é uma incógnita. Apesar do histórico do projeto do T-38/F-5, não esta claro se o N400NT da Northrop terá um desempenho próximo dos seus antecessores.

Sabe-se que a Boeing dotou seu avião com um GE F404-IN20, um dos mais potentes da família 404, porem, ser supersônico não é um dos requerimentos do programa T-X.

Não vou tomar mais tempo do leitor tratando dos outros concorrentes pois existe um vasto material na internet sobre o M-346 e o T-50 que são aeronaves que voam já há alguns anos e foram escolhidas por mais de uma Força Aérea como treinadores avançados. Só vou chamar a atenção para alguns detalhes.

O M-346 que na competição T-X é designado como T-100 pela Raytheon e suas várias parceiras é o único bimotor entre os competidores. Talvez tenha sido este um dos motivos para ter sido escolhido como treinador avançado por Israel que o preferiu ao invés do T-50.

O motor Honeywell/ITEC F124 também foi um ponto favorável para escolha do M-346 em Taiwan que já os utilizava em seus caças AIDC F-CK-1 Ching-kuo.

Porém, aquilo que lá fora foi seu grande trunfo, provavelmente será a sua ruína na competição do T-X, pois nos EUA já existe toda uma cadeia de manutenção e fornecimento para a turbina GE 404 utilizadas nos Hornets, lembrando que três dos concorrentes adotaram esse motor, com pequenas variações entre modelos.

Sobre o T-50 que será oferecido pela Lockheed em parceria com a coreana KAI, apesar de ser uma das opções de menor risco tendo em vista o número de aviões já produzidos, o que é importante lembrar é que se ele for o escolhido teremos toda a concentração da fabricação de caças nas mãos de uma única empresa. Seria essa uma boa estratégia a longo prazo para a industria de defesa americana?

Se acontecer o mesmo que aconteceu historicamente com o T-38, o futuro treinador escolhido pela USAF, poderá ser o precursor de um futuro caça leve a ser oferecido a outras nações por um baixo custo devido a sua provável grande escala de produção.

Se isto realmente acontecer, talvez esteja surgindo um "novo F-5" que poderá prejudicar comercialmente as possibilidades de exportação de caças como o JF-17 e afins.

Eu preferi fazer essas considerações sobre as empresas envolvidas nessa concorrência porque acredito que o grande dilema das autoridades na escolha de um vencedor não será escolher um avião mas sim decidir por salvar ou não a Boeing Defense. 

Se optarem por salvar a Boeing, estaremos vendo mais uma vez um avião da Northrop sendo injustiçado?


N400NT da Northrop Grumman
Atualização 

Três dias após a publicação dessa matéria os EUA aprovaram a venda de 72 caças F-15 para o Qatar e 32 caças F/A-18 E/F para o Kuwait o que poderia estender a linha de produção de caças da Boeing para além das datas mencionadas (Bloomberg).


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