Da rua para os ares

A cidade de São Paulo já conta com pelo menos quatro serviços de compartilhamento de helicópteros e jatos executivos. E a briga está apenas começando

Em meados de junho, o gerente de marketing da desenvolvedora de software alemã SAP, Maximiliano Cunha, voou do heliponto do Shopping D&D, em São Paulo, até o Hotel Blue Tree, na região da avenida Faria Lima. 

O trajeto de carro não é superior a quatro quilômetros e a viagem não demora mais de 20 minutos com trânsito normal. Mas, mesmo assim, Cunha quis fazer esse percurso pelos ares. Gastou apenas R$ 96 e foi uma das primeiras pessoas a usar o UberCopter, o serviço de helicóptero do Uber, que estreava em São Paulo naquele dia.

“Foi uma experiência curiosa, com a vista da cidade à noite”, afirma Cunha. “Boa parte dos voos eram feitos por executivos e agora vai ter uma nova parcela da população usufruindo.”

Cunha foi um dos primeiros passageiros de uma guerra que está deixando as ruas e chegando aos ares. Além do Uber, duas novas empresas brasileiras de compartilhamento de voos surgiram na cidade de São Paulo: FlyHelo e Flyedge. 

O concorrente espanhol do Uber, o Cabify, que começou a operar com veículos na capital paulista, já planeja lançar o mesmo serviço para helicópteros e jatos até o fim do ano. “Já estou em contato com alguns proprietários de frota de aviões executivos e helicópteros”, diz Daniel Bedoya, diretor de operações do Cabify no Brasil. Soma-se a eles a empresa de táxi aéreo Global Aviation, que lançou o aplicativo You First, com modelo de negócio semelhante.

Essas versões aéreas do Uber não são donas de um helicóptero sequer. Para “vender” os voos, elas fazem acordo com empresas de táxi aéreo, como AirJET, no caso do Uber, ou a Líder Aviação, para a FlyHelo. O que atrai todas essas startups é o gigantesco mercado paulista. 

Pesquisa realizada pela Associação Brasileira dos Pilotos de Helicóptero (Abraphe), em 2013 (dado mais recente), revelou que São Paulo tinha a maior frota de aparelhos do mundo, com 411 aeronaves e 1.300 pousos e decolagens por dia, acima de Nova York e Tóquio. 

Além de helicópteros, essas empresas também investem no compartilhamento de jatos executivos, sendo que o Brasil é o segundo maior mercado do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo a Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag).

A FlyHelo, do empresário francês Hadrien Royal, começou operando voos de helicóptero entre São Paulo e praias do litoral norte de São Paulo e Campos de Jordão. Sua frota terceirizada soma 14 helicópteros e 20 jatos. Por meio de um aplicativo, é possível comprar um assento em um desses voos ou criar a sua própria rota, podendo compartilhar as poltronas remanescentes. 

“É mais barato que ponte aérea em épocas de festas”, diz Royal. Já a Flyedge realiza operações ligando São Paulo a cidades do interior e litoral de São Paulo, explorando o turismo. O fundador da companhia, Milton Gazzano Jr., conta que a ideia nasceu durante um engarrafamento no fim do ano passado, quando ele e dois amigos estavam a caminho de Ilhabela. 

“Em um helicóptero Esquilo cabem cinco pessoas”, afirma Gazzano Jr. “Se a gente encontrasse outras duas pessoas para compartilhar o voo, ficaria mais barato.”

Para concorrer com as empresas digitais, a empresa de taxi aéreo Global Aviation lançou seu próprio aplicativo, o “You First”, para compartilhamento de voos entre os aeroportos de Guarulhos e Congonhas, cujos assentos custam, em média, R$ 1.150. Segundo Décio Ricardo Galvão, presidente da empresa, foram fechadas parcerias com as companhias aéreas Air France, Delta e Gol, casando horários de partida dos voos da Global com os horários das aeronaves dessas companhias.

Mas assim como acontece nas ruas, nos quais os taxistas se mobilizaram para enfrentar o Uber, muitas vezes usando a violência, a disputa nos ares já está causando estresse no mercado de aviação executiva em grau parecido com o que já ocorre em terra firme. 

“Há um risco de acontecer o que houve com os táxis, disputando com carro privado”, diz Ricardo Nogueira, diretor geral da Abag. “Se isso acontecer, tem um nome: táxi aéreo pirata.” Os especialistas ainda alertam para o baixo custo, em especial do Uber. Por R$ 460 por assento, por exemplo, é possível voar do Blue Tree Faria Lima até o aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, o que não paga nem taxa de pouso do helicóptero que, em média, custa R$ 500. 

“Quando se fala em segurança de voo, o barato sempre sai caro”, afirma Francisco Lyra, consultor de aviação da Cfly Aviation, que questiona a qualidade dos serviços. “O aplicativo não empresta qualidade ao processo.” Mas os aplicativos contam com um importante apoio.  

“Esses softwares conseguem democratizar o uso das aeronaves”, diz o comandante Rodrigo Duarte, integrante do conselho da Abraphe.  A batalha dos ares está apenas começando.

Pontes aéreas - As empresas que vendem viagens de helicópteros compartilhadas em São Paulo:

Uber
Faz voos do Hotel Blue Tree Faria Lima para o aeroporto de Guarulhos (R$ 460 por assento), do Hotel Transamérica para o Blue Tree Faria Lima (R$ 180 por assento) e do Helicentro Morumbi para o Blue Tree Faria Lima (R$ 166 por assento)

Flyedge
Liga São Paulo a cidades do interior e litoral. Um voo de SP para o Guarujá custa R$ 1.250 por pessoa. Em jatos executivos, para 7 pessoas, voos para festas em Barretos custam R$ 3.390 por pessoa  

FlyHelo
Opera voos entre São Paulo e Maresias, Ilha Bela, Paraty e Campos de Jordão. A empresa estuda oferta de R$ 1 mil para um voo para três pessoas entre o Campo de Marte e o Aeroporto de Guarulhos

Global Aviation
Lançou o aplicativo You First para compartilhamento de voos entre Cumbica e Congonhas, cujos assentos custam em média R$ 1.150. Está previsto voos desses aeroportos para as regiões da Paulista e Faria Lima