Forças Armadas "babam" novo caça enquanto esperam cortes


Na Feira Internacional de Segurança, fila para subir no caça sueco Gripen parece não terminar nunca. “Até o pessoal da Marinha está entrando”, espanta-se um oficial

A principal atração da Feira Internacional de Segurança que acontece até a próxima sexta-feira no Riocentro, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, é o caça sueco Gripen, que a partir de 2017 vai começar a patrulhar o espaço aéreo brasileiro. 

A fila para subir no avião, que está instalado no stand da empresa Saab, responsável por sua fabricação, parece não terminar nunca. Até mesmo o pessoal da Aeronáutica, acostumado com aviões de todos os tipos, faz questão de entrar para poder sentar no cockpit e se sentir como piloto da máquina que pode atingir 1400 km/h ao nível do mar. 



“Até o pessoal da Marinha está entrando”, espanta-se um oficial da Aeronáutica que por razões de hierarquia não pode ser identificado e que ficou quase 40 minutos na fila para ter seus dois minutos dentro do avião.

Além de subir no caça, o público que percorre os cinco stands da Feira pode ainda, se tiver paciência de esperar, entrar no simulador do avião e, ao lado de um técnico, sair em perseguição a um caça inimigo nos céus de um Rio de Janeiro virtual. Ele é usado pelas forças aéreas da Suécia, África do Sul, Hungria, República Tcheca, Inglaterra e Tailândia e em breve também pelo Brasil.

Pena que o Gripen não vai chegar em tempo dos Jogos Olímpicos, já que a definição pela compra se estendeu do fim do segundo mandato do governo de Luiz Inácio Lula da Silva até mais da metade do primeiro governo Dilma Rousseff. 


Por isso, deve ser feito um acordo às pressas com a Rússia para que caças russos ajudem o Brasil na tarefa*. “Tudo depende do orçamento. O acordo precisa ser fechado logo porque já até passamos do deadline”, disse o Ministro Jaques Wagner, afirmando ainda que dez caças suecos, do mesmo modelo dos comprados pelo governo brasileiro, podem ser usados nos Jogos Olímpicos, num acordo com o governo sueco.

Mas o Gripen é uma ilha em meio ao ajuste fiscal por que passam as finanças do país e atingem em cheio o Ministério da Defesa. Durante a LAAD, o Wagner, ao lado dos três ministros militares, deixou bem claro que a situação não é para novos investimentos. “Novas aquisições em ano de ajuste fiscal não é razoável. Só vamos continuar com o que já tem. Ao fim do ano poderemos vislumbrar um horizonte melhor.” Há dívidas com o projeto do cargueiro KC 390 da Embraer, em torno de 700 milhões. “Mas já liberamos 120 milhões semana passada e em junho devemos fazer o voo inaugural”, prometeu o ministro.


O Brasil aposta também na melhora das relações entre Estados Unidos e Cuba para alavancar bons negócios nos dois países. “O aperto de mão entre Obama e Raul Castro põe fim ao período de guerra fria. Pôs a última pedra nesse processo”, disse. “Temos uma relação muito próxima com Cuba e fiquei feliz em saber que a presidente Dilma manteve sua agenda completa nos Estados Unidos”, comemorou Wagner, que tem dois acordos saindo do forno com os americanos, faltando apenas aprovação do Congresso Nacional.

A Argentina foi outro assunto que tomou conta da agenda do ministro. A aproximação dos vizinhos com a China preocupa o governo brasileiro, que quer aproveitar o acordo de transferência de tecnologia da compra dos Gripen para vender aviões para a Argentina. Mesmo que a Inglaterra, que tem componentes importantes no Gripen, já tenha afirmado que não vai permitir a negociação com seu inimigo histórico. Wagner vê saídas: “Ou buscamos a substituição de equipamentos britânicos ou tentamos uma negociação na ONU para acabar com esse mal-estar que dura desde a década de 50, por conta das Malvinas”, disse.


Mas apesar de afirmar que cortes virão nos orçamentos das três forças, Jaques Wagner aposta na sensibilidade da equipe econômica do Governo para que não haja retrocesso no que já está em andamento. “O Governo brasileiro tem consciência de que não podemos descontinuar o processo de adensamento de defesa”, disse. “Não sei o que vai acontecer, mas cortes serão feitos. Tenho dito que as forças vão ter que apertar o cinto em coisas que não prioritárias”.

Sobre a feira 

Na Feira é possível encontrar a mais alta tecnologia em armamento militar e de segurança. Armas, munição, vestimentas, serviços, viaturas, embarcações, aeronaves e os já tão famosos drones. São mais de 700 expositores de mais de 70 países, sem falar nas cerca de 128 delegações oficiais de 61 países. Entre eles, Estados Unidos, Israel, Inglaterra, Suécia, Rússia e China com o que há de mais novo no mercado de segurança militar e privada. O Brasil representa 41,2% do total de gastos militares na América Latina e, com os grandes eventos, desperta o interesse do mundo inteiro na décima edição do evento.

Terra

* Nota: Com relação aos caças russos mencionados na matéria, o autor não especifica de onde partiu isso. Sabemos que existem boatos pela Internet. Coisa que já aconteceu antes por ocasião do anuncio da escolho do Gripen e que não merece muita atenção.