Garçom: Passa a régua!


O piloto Luiz Antônio Cherici, de 71 anos, recebeu alta na segunda-feira (26) do Hospital Santa Isabel, em Jaboticabal (SP), depois de sofrer uma queda de ultraleve no fim de semana.

Recuperando-se de uma vértebra quebrada, e com um colete de proteção no corpo que precisa usar por três meses, o aposentado relata que, quando saiu com o avião na noite de sábado (24), queria apenas fazer um teste. Ele ainda garante que este foi o quarto acidente que sofreu em seus 45 anos de aviação.

O monomotor, modelo KR2 Experimental, colidiu de bico na pista do aeroporto de Jaboticabal enquanto começava a levantar voo e se arrastou por aproximadamente 50 metros.

O Quarto Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Seripa IV), ligado ao Comando da Aeronáutica, confirmou ter sido notificado sobre a ocorrência e que as investigações ficarão a cargo da Polícia Civil, por se tratar de uma aeronave experimental.

'Estrago total'

Cherici conta que o ultraleve tinha sido montado por ele e que, após uma série de reformas, decidiu sair na pista do aeroporto, sem planos de decolar, para checar eventuais anomalias em seu funcionamento.

“Esse tipo de ultraleve passa por um teste anualmente. Ele passou por reforma durante um ano e um piloto viria buscar o avião de Monte Alto, onde é realizado esse exame. Verifiquei que o breque não estava bom, voltei para o hangar, arrumei e fui fazer uma corrida para ver se tinha alguma tendência, porque normalmente costuma aparecer nesse tipo de projeto”, conta.

Mas uma corrente de ar inesperada, afirma o piloto, desestabilizou o veículo e o obrigou a fazer uma manobra malsucedida de correção que resultou no acidente.

“Na corrida formou-se um colchão de ar e o avião chegou a sair do chão. Nisso, a asa direita se abaixou. Isso é uma coisa que tem que ser corrigida rapidamente e esse tipo de avião é muito sensível. Quando corrigi para a esquerda foi demais, então a asa bateu no chão. Em seguida foi a bequilha [haste auxiliar para a aterrissagem], que também é uma parte sensível do avião. Aí saiu o motor. Foi um estrago total”, lembra.

Com dificuldade e dor, o piloto relata que conseguiu deixar o avião para se afastar de qualquer risco de explosão. Em seguida, ele foi socorrido por um amigo no aeroporto e foi levado para atendimento médico. “A tristeza é ver o estado do avião, mas em compensação estou bem. Poderia estar bem pior pelo estado que ficou o avião."

Quatro acidentes

O susto, no entanto, não é o primeiro na vida do piloto. Contando com o último episódio em Jaboticabal, Cherici alega que ao longo de sua carreira se envolveu em ao menos quatro acidentes. O primeiro foi há 20 anos quando bateu com uma aeronave de quatro lugares no Parque Permanente de Exposições de Ribeirão Preto e, apesar dos danos, sobreviveu.

Cinco anos depois, ele alega que, por problemas no sistema de abastecimento de combustível do avião, fez um pouso forçado na terra, perto de uma área tomada pela caatinga, durante uma excursão ao longo do Rio São Francisco, entre Minas Gerais e Bahia, que também o deixou machucado, mas não o fez parar.

Antes do acidente em Jaboticabal, o aposentado se lembra ainda de ter ficado preso com um ultraleve a um poste, perto de fios de alta tensão, depois que o motor do avião falhou devido ao calor na região. "Bateu, a asa esquerda abraçou o poste. A direita ficou a 50 centímetros da alta tensão. O poste mexeu uns 20 centímetros e não quebrou. Quer dizer, foi muita sorte", afirma.

Depois de mais uma vez ter sobrevivido, o aposentado concluiu que chegou a hora de parar de verdade, embora a paixão pela aviação continue. Avião, para ele, a partir de agora, só se for como passageiro. "É a terceira vértebra que eu trinco, eu sei como é duro. Vou usar um colete por três meses. Isso vai pra balança, pra parar mesmo."