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“Do alto, tudo é mais belo”. A frase do pai da aviação, Alberto Santos Dumont, dá a noção exata do que é voar. Enxergar tudo de cima, ter novas perspectivas. Sentir-se mais livre. O que o inventor do 14-bis não imaginava, é que depois de mais de 100 anos suas ideias continuassem a inspirar futuras gerações. Gente que como ele acredita em sonhos e não mede esforços para realizá-los.

Em Itabira, três malucos pela aviação seguiram os passos de Santos Dumont. A vontade de voar é tanta, que construíram o próprio avião. Abel de Lemos Pires, 56 anos, José Luiz Santos Ribeiro, 64, e o filho dele, Saulo Faustino Ribeiro, 32, passaram seis meses montando um ultraleve modelo ML300. O monomotor foi comprado de segunda mão e chegou completamente desmembrado. Algumas peças não encaixavam direito e isso exigiu a criatividade do trio.

O motorista aposentado José Luiz é o “professor pardal” entre os três. Foi ele quem idealizou as peças problemáticas e inventou soluções para os problemas que surgiram durante a montagem. De um gravador de fitas tirou o rádio comunicador que facilita a vida de quem está no ultraleve. Ele também é o percursor da aviação em Itabira. Foi o primeiro a ter um monomotor na cidade, isso lá na década de 80. “Não tinha como voar. O avião ficava estacionado na porta da minha casa”, conta.

O avião construído em parceria com o filho e o amigo é o terceiro na vida de José Luiz. Ele se desfez do que não chegou a voar e comprou outro algunsanos depois, no início da década de 90. O ultraleve está com o motorista até hoje e fica em um hangar que ele construiu sozinho (sozinho mesmo!) no sítio que possui. “Passado um tempo, o Abel me procurou para comprar o outro avião. Encontramos um cara que estava vendendo o ML300 e fizemos a proposta. Pagamos como se fosse um consórcio”, relembra José Luiz.


O engenheiro civil Abel é aficionado por aviões. Fez o primeiro voo aos 17 anos, no aeroclube de Juiz de Fora, onde morava. Era um planador condenado pela Aeronáutica de tão velho, mas que mesmo assim supria – perigosamente – a vontade estar nos céus. “Era perigoso mesmo, só que a gente não ligava muito para isso. Eu era jovem, né. Hoje é que analiso o perigo que era”, comenta ele.

Abel tem muitas histórias e se diz até constrangido de contar loucuras que já cometeu para poder estar abordo de uma aeronave. Bastamalguns minutos de conversa para perceber o quanto ele é apaixonado. Perto do ultraleve que ajudou a construir, o barulho do motor já é suficiente para deixa-lo arrepiado e com os olhos cheios de água. “O homem sempre quis estar no céu. Voar é o maior sonho do homem”, resume.

Já Saulo Ribeiro é a prova de que filho de peixe, peixinho é. Ou que filho de pássaro, passarinho é. O rapaz cresceu ouvindo as histórias do pai e não teve jeito: também se apaixonou pela aviação. Paixão avassaladora. Formou-se em mecânica e hoje trabalha na Gol Linhas Aéreas, em Belo Horizonte. “Vejo aviões o dia inteiro”, diz.


A criação e a falta de espaço

O avião foi montado pelo trio em 2010. O modelo possui um motor de 50 cavalos, equivalente a um carro 1.0. O ultraleve alcança velocidade de 80 km/h e tem um tanque que suporta até 2h20 de voo. “É uma asa-delta com motor”, resumem os construtores. “A sensação é incrível. Não tem nada melhor que você estar lá em cima, sentindo o vento na cara e apreciando a paisagem”, comenta Saulo.

O difícil é achar um lugar para voar. O trio lamenta que Itabira, até hoje, não tenha uma pista. Articulações já foram feitas, mas o projeto nunca passou de promessas. Para conseguir decolar, os donos do avião procuram locais mais próximos, especialmente no Vale do Aço. Todos os três possuem autorização para pilotar, mas Saulo é o que mais toca o ultraleve.

“O Zé Luiz é o percursor da aviação em Itabira. Foi o primeiro a ter um avião na cidade. Depois dele apareceram mais alguns. Só não tem mais porque não tem pista. Tenho certeza que se tivesse um incentivo a gente já teria até um aeroclube itabirano”, argumenta Abel. Anos atrás, os amigos voavam em uma pista improvisada na usina da Vale Verde. “Ficamos lá por um bom tempo, mas o Adílson (Adício Dias Soares, proprietário da empresa) precisou do espaço. Somos muito gratos a ele, porque se não fosse isso não teríamos conseguido nunca”, completa o engenheiro.

Mas procurar um lugar para voar é o de menos para quem já teve que quebrar a cabeça e construir um avião do zero. Com toda certeza, não vai ser esse obstáculo que vai impedir que os amigos voem. Aliás, não tem impedido. E os três malucos pelo céu estão sempre lá, onde tudo é mais bonito. 

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