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Faturando com o Gripado


Parceria entre a sueca Saab, fabricante dos aviões caça Gripen NG, e o Grupo InbraFiltro, de Mauá, que produz estruturas metálicas para o setor de defesa e Segurança, a exemplo de portas blindadas para aeronaves da Embraer, a SBTA (São Bernardo Tecnologias Aeronáuticas) deverá faturar entre US$ 40 milhões (R$ 102,8 milhões, com o dólar a R$ 2,57) e US$ 60 milhões (R$ 154,2 milhões) de cinco a sete anos. A estimativa é do vice-presidente de parcerias industriais da Saab Aeronáutica, Jan Germundsson.

A SBTA, que começa a ser construída no ano que vem, vai gerenciar a cadeia de suprimentos e produzir partes estruturais do Gripen NG a partir de 2017. As 36 aeronaves (28 monopostos e oito de dois lugares – os quais o País terá importante papel na confecção) adquiridas pelo governo brasileiro para substituir a atual frota da FAB (Força Aérea Brasileira) começarão a ser entregues em 2019, processo que será finalizado até 2024.

A produção será feita em parceria com a Saab, que receberá da União US$ 5,4 bilhões (R$ 13,8 bilhões) para transferir a tecnologia do caça e entregar as aeronaves. Está previsto, por enquanto, que a SBTA fabrique as asas do avião supersônico e as partes traseira e dianteira da fuselagem. Para dar o pontapé inicial no processo, a fabricante sueca vai injetar US$ 150 milhões (R$ 385 milhões) na companhia, recursos que deverão ser utilizados para criá-la e adquirir maquinário de ponta.

 “A ideia é fazer da SBTA uma produtora global (ou seja, capaz de fornecer para qualquer empresa do segmento de defesa e civil)”, afirma Germundsson. “Ela tem que ser competitiva. Vamos dar um suporte maior nos primeiros anos, mas o objetivo é que ela caminhe com as próprias pernas e amplie sua capacidade de produção.” 

A companhia são-bernardense, que pode chegar a contratar 1.000 profissionais, e possui 40% de participação da Saab e 60% da Inbra, será uma tier one, que quer dizer administradora de cadeia de suprimentos de primeira linha que pode buscar fornecer, inclusive, para concorrentes internacionais da fabricante sueca, como a norte-americana Boeing e a europeia Airbus. 

“É fundamental que ela encontre outros clientes, já que será fabricante de nível internacional. Além disso, 36 caças (que têm durabilidade média de 30 anos) não vão sustentar a fábrica ad eternum (infinitamente). É necessário que ela se torne sustentável”, complementa Bengt Janér, diretor da Saab no Brasil.


Cidade foi escolhida por coincidência, diz executivo

Com 20 mil m² (metros quadrados) projetados, a SBTA será erguida em terreno de 40 mil m² em frente à Rodovia dos Imigrantes, sentido São Paulo, próximo à entrada do Rodoanel. Em relação à escolha da Inbra para a parceria e localização em São Bernardo, Germundsson alega ter sido coincidência, pois ao mesmo tempo em que a empresa mauaense demonstrou interesse em fazer parte do processo e já tinha experiência no setor ao fornecer à Embraer (principal parceira da Saab na produção do Gripen NG, o qual caberá a ela a montagem final), o prefeito são-bernardense Luiz Marinho começou a se aproximar da fabricante sueca e incentivar investimentos na cidade ao demonstrar interesse em diversificar a vocação local para a indústria da defesa – além de fazer lobby junto ao governo federal para que ela fosse a preferida em relação às outras duas concorrentes, a Boeing e a francesa Rafale.

No início do processo, em 2008, quando foi realizado pedido de oferta da Aeronáutica para a renovação de sua frota, a Saab cogitava apenas a cidade de São José dos Campos, no interior de São Paulo, para promover negócios, pois era famosa por sediar a Embraer e ter muitas empresas atuantes no segmento da defesa. À época, no entanto, a fabricante de Mauá os procurou e demonstrou interesse em fazer parte da fabricação do Gripen NG, caso a aeronave fosse eleita, conta Germundssson. “Desde 2009 nós temos conversas com a Inbra, que foi escolhida pela qualidade da produção e vontade de dar salto tecnológico. Além disso, ela já se relacionava com a Akaer (de São José dos Campos, que será a responsável pelos projetos de engenharia das unidades estruturais do Gripen NG).”

Germundsson afirma, ainda, que o fato de a fabricante de caminhões e ônibus sueca Scania estar sediada (há 52 anos) em São Bernardo (embora hoje pertença à Volkswagen, a montadora já integrou a Investor, braço financeiro do grupo Wallenberg, controlador da Saab, Ericsson, Electrolux e AstraZeneca, entre outras) influenciou na opção.

As demais montadoras instaladas no município também atraíram, como potencial para desenvolver cadeia de suprimentos. “A Saab visitou cerca de dez empresas brasileiras que podem se tornar fornecedoras”, conta, garantindo que há firmas são-bernardenses neste grupo. 


Conhecimento em segmento de veículos facilita entrada da região

O know-how no segmento automobilístico facilita para que a indústria da região também comece a atuar no setor de defesa, já que maquinários da indústria metalúrgica e mão de obra especializada podem ser aproveitados. Na avaliação de Lars Ydreskog, vice-presidente de operações de aeronáutica da Saab, é perfeitamente possível esse ajuste, embora saliente que os interessados precisam se qualificar, já que o processo de confecção dos aviões caça é mais complexo. 

“Na linha de montagem de veículos, em 30 segundos você coloca um para-brisa, por exemplo. Aqui, uma etapa leva 120 horas. A diferença está nesse tempo e na complexidade da fabricação. Mas existe a possibilidade de adaptação. Um engenheiro, ou mesmo um mecânico, pode aprender a fazer o processo, já que ele possui uma base de formação e a filosofia da produção enxuta é a mesma.”

lhões Ydreskog conta que um caça leva cerca de dois anos para ser produzido, e a capacidade de produção da fábrica de aeronaves em Linköping, sede da companhia, é de 30 por ano – embora hoje apenas oito estejam sendo confeccionados anualmente. 

Um carro, por sua vez, é fabricado atualmente em 20 horas, e uma grande montadora tem a capacidade de produzir 80 mil carros ao ano, cita Francisco Satkunas, diretor da SAE, Sociedade de Engenheiros da Mobilidade. A diferença nos valores de venda também é exorbitante. Uma aeronave desse tipo custa US$ 100 milhões (R$ 251 milhões), enquanto veículos podem ser vendidos a partir de R$ 30 mil até cerca de R$ 3,5 milhões (os de luxo superesportivos).

A Jornalísta viajou a convite da Saab 

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