O voo MH17 vai mudar a aviação, mas ainda ninguém sabe bem como


Passaram duas semanas desde o desastre da Malaysia Airlines no Leste da Ucrânia e a fotografia ainda lá está, no Facebook, acompanhada por uma frase que causa arrepios na espinha pela coincidência transformada em presságio.

Pouco antes de ocupar o seu lugar no Boeing 777, o holandês Cornelis Schilder, que geria uma loja de flores em Volendam com a namorada, Neeltje Tol, fazia uma piada sobre um outro avião da mesma companhia aérea que desapareceu em Abril sem deixar rasto, talvez para afastar o nervosismo da viagem de 12 horas que tinha pela frente em direcção a Kuala Lumpur: “Se este desaparecer, já sabem como é que ele é.”

Por essa altura, a rota do voo que ia levar Cornelis Schilder, a sua namorada e mais 296 pessoas até à Malásia já estava traçada, mas imaginar que alguma delas estava mais nervosa por ter de sobrevoar o território da Ucrânia do que por estar simplesmente a subir a bordo de um avião é não perceber que a queda do voo MH17 pode marcar mais um momento de viragem na aviação comercial.

Antes, milhares de aviões carregados de passageiros com férias marcadas em destinos paradisíacos cruzavam zonas de guerra — ou zonas de conflito, consoante a cuidada linguagem dos vários governos e organizações internacionais — sem que muitos imaginassem sequer que as suas vidas podiam ser destruídas por um míssil vindo lá de baixo; depois, a estupefacção e o receio apoderaram-se do público e a confusão instalou-se no sector da aviação comercial.

O que antes era uma rotina assente na confiança que as companhias aéreas depositam nas informações que recebem sobre o que se passa lá em baixo, é agora uma incógnita para muitas delas, como a Emirates, a Virgin Atlantic, a KLM e a Air France, que na semana passada decidiram evitar o Iraque apesar da garantia das autoridades de Bagdad de que o seu espaço aéreo é tão seguro como qualquer outro.

Em sentido contrário, a australiana Qantas (parceira da Emirates desde 2013) e a Etihad Airlines, entre outras, mantiveram a decisão de passar pelo Iraque.

Em comunicado, a companhia australiana defendeu a sua decisão com o facto de não estarem em vigor avisos que ponham em perigo os seus aviões, pelo menos à altitude a que eles sobrevoam o espaço aéreo iraquiano — entre os 11.500 e os 12.500 metros.

“Não há nenhum indício de que sobrevoar o Iraque é inseguro para a aviação comercial, em particular devido à altitude de cruzeiro que a maioria [das companhias] mantêm, incluindo a Qantas”, lê-se no comunicado da empresa.

Como explicar, então, que duas das maiores companhias aéreas do mundo, unidas por uma parceria, tomem decisões opostas sobre uma questão de segurança que passou a ocupar grande parte da atenção dos passageiros?

Confiança é a palavra-chave
Em primeiro lugar, as companhias são as principais responsáveis pelos planos de voo dos seus aviões — se as autoridades de um determinado país consideram que o seu espaço aéreo é seguro, e se as autoridades dos países de origem das companhias não têm em vigor proibições, são as próprias empresas que decidem por onde devem passar, após uma análise de riscos que inclui variáveis como a segurança, o preço do combustível ou as condições meteorológicas.

A confiança é a palavra-chave. Uma teia de informações que vai sendo construída por agência de serviços secretos e governos fez chegar à Malaysia Airlines a informação de que sobrevoar o Leste da Ucrânia acima dos 32.000 pés (9753 metros) era seguro, e os responsáveis pelo plano de voo fizeram os seus cálculos com base nessa informação — se é seguro, como justificar uma viagem mais longa, com mais gastos para a empresa? O problema é que as contingências de voo podem forçar os pilotos a descer até aos 10.000 pés (cerca de três quilómetros), em caso de despressurização da cabina, pelo que o avião ficaria ao alcance de armamento menos sofisticado do que aquele que o terá abatido.

Ouvido pelo PÚBLICO, o comandante Miguel Silveira, presidente da Associação Portuguesa de Pilotos de Linhas Aéreas, deixou claro o que acontecerá se um dia essa confiança for perdida: “Esta associação, tão depressa se convença de que nada disto é sério, irá imediatamente emanar uma recomendação no sentido de parar a aviação.” Mas, sublinha, a realidade “ainda está muito longe disso”. “A nível de Portugal, não conheço nenhuma empresa com que as pessoas se devam preocupar”, garantiu.